As duas mais singulares características da espécie humana são a capacidade de raciocínio e o formato de suas mãos. Somos capazes de converter o mundo real em representações e realizar infinitas operações mentais com elas. Ao mesmo tempo, nossos dedos polegar e indicador em conjunto permitem movimentos precisos e delicados, o que nos confere inigualável potencial de realização. Sem esses dois trunfos, dificilmente teríamos chegado ao cubismo de Picasso, à relatividade de Einstein, à lua ou à instituição de um sistema financeiro globalizado. Esses são apenas alguns exemplos distintos daquilo que só o ser humano foi e é capaz de fazer.

Nem todos, porém e felizmente, são capazes de realizações tão marcantes, nefastas ou grandiosas, mas há uma categoria dessas possibilidades que quase a totalidade da espécie vem praticando desde a sua origem: o trabalho. Muito cedo o homem demonstrou, diferentemente das outras espécies, que não estava satisfeito com aquilo que a natureza oferecia, ou, ao menos, não na forma exclusiva em que ela oferecia. A essa necessidade verificada pelo homem de transformar a natureza, associada a sua capacidade de empregar meios nessa operação é que podemos denominar trabalho.

Foi, em última análise, não a razão e nem o formato da mão, mas o trabalho que nos permitiu chegar aonde chegamos: ao nobre posto de senhores do planeta. Com ele nos tornamos capazes de habitar as geleiras e os desertos, de fazer da areia o vidro, do petróleo o plástico. Represamos rios, ganhamos os céus, escavamos as profundezas, triunfamos na batalha com a natureza. É bem verdade que durante muito tempo fizemos tudo isso sem muito critério e hoje os apressamos para tentar reparar os exageros. Esquecemos que a natureza, de forma alguma, era inimiga, ao contrário, era a principal aliada e hoje o calor, as enchentes e as epidemias insistem em nos lembrar disso. Diga-se também que não fomos nem um pouco hábeis no que diz respeito à repartição dos triunfos do trabalho entre os colegas de espécie e, nesse caso, não estou certo de que estejamos tão apressados como deveríamos na correção dos equívocos.

Para o bem e para o mal, enfim, o trabalho é o nosso maior diferencial em relação às demais espécies que habitam o planeta e é, também, a nossa sina. É por isso que pensadores como Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx, que podem ser considerados os “pais” do pensamento econômico moderno, afirmavam que o trabalho é uma condição imanente à existência da espécie humana, ou seja, é uma condição que nasce com o próprio homem, e que também o caracteriza e o diferencia das outras espécies de seres vivos. É o nosso maior valor, nosso maior troféu.

(Artigo disponível para publicação).

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